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Ricardo Reis e a mitologia

Ao longe os montes têm neve ao sol,
Mas é suave já o frio calmo
         Que alisa e agudece
         Os dardos do sol alto.

Hoje, Neera, não nos escondamos,
Nada nos falta, porque nada somos.
         Não esperamos nada
         E temos frio ao sol.

Mas tal como é, gozemos o momento,
Solenes na alegria levemente,
         E aguardando a morte
         Como quem a conhece. 

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Prazer, Mas devagar,
Lídia, que a sorte àqueles não é grata
Que lhe das mãos arrancam.
Furtivos retiremos do horto mundo
Os depredandos pomos.
Não despertemos, onde dorme, a Erínis
Que cada gozo trava.
Corno um regato, mudos passageiros,
Gozemos escondidos.
A sorte inveja, Lídia. Emudeçamos. 


Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa

O Mito de Orfeu e a poesia

Orfeu Rebelde

Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade no meu sofrimento.
Outros, felizes, sejam rouxinóis...
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.
Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legítima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.

Miguel Torga


Orpheus and Euridice, 1890, George Frederic Watts RA


Descida aos Infernos

Desço aos infernos, a descer em mim.
Mas agora o meu canto não perfura
O coração da morte,
À procura
Da sombra
Dum amor perdido.
Agora
É o repetido
Aceno
Do próprio abismo
Que me seduz.
É ele, embriaguez nocturna da vontade,
Que me obriga a sair da claridade
E a caminhar sem luz.

Ergo a voz e mergulho
Dentro do poço,
Neste moço heroísmo
Dos poetas,
Que enfrentam confiantes
O interdito
Guardado por gigantes,
Cães vigilantes
Aos portões do mito.

E entro finalmente
No reino tenebroso
Das minhas trevas.
Quebra-se a lira,
Cessa a melodia;
E um medo triste, de vergonha e assombro,
Gela-me o sangue, rio sem nascente,
Onde o céu, lá no alto, se reflecte,
Inútil como a paz que me promete.

Miguel Torga


*Deves consultar a ficha informativa distribuída na aula de dia 2 de Dezembro de 2011.

"Histórias do País de Helena"


Helena de Tróia, 1898, Evelyn de Morgan

Histórias do País de Helena

Havia marinheiros
No país de Helena
Que morriam ao pôr do sol
E havia Helena que sonhava
Fazer um dia tranças às
ondas
E um berço muito grande

para o mar


* Material usado na aula de dia 2 de Dezembro de 2011.